20/06/2023

HISTÓRIAS NÃO CONTADAS

 


Em 20.06.66, tomei posse no BB de Itaberaba (BA). A cidade era como está na foto. A luz era a motor: ligava às 18 e desligava às 22 horas. Fiz muitos balancetes e balanços à luz de lampião. Não havia telefone. Nem televisão. Somente um médico e um dentista atendiam à população.

A agência tinha 21 funcionários. A escrituração das contas dos clientes era feita à mão. As moças e os rapazes rodavam nesta praça, como fazíamos na Praça João Pinheiro em Muriaé. Uma das distrações era esperar o ônibus que vinha de Salvador. Havia a expectativa de abrir o malote, principalmente quando se aproximava a data da gratificação que o banco dava semestralmente. Frequentemente trabalhava aos sábados. De graça! Era uma distração! Havia viagens para levar dinheiro a Lençóis e Rui Barbosa. Uma mala de dinheiro, numa Rural Willys, garantida por dois funcionários armados com um revólver que nunca havia disparado. Chegando a Lençóis, quase sempre, o subgerente puxava a gaveta, pegava uma garrafa de pinga e nos oferecia uma dose. São muitas histórias verdadeiras. Como dizia um colega, o padre era um “bicho” para dar cheque sem fundos! Na “zona” havia somente três profissionais. Você tinha que “namorar” primeiro. Essa é boa: devido ao calor, as paredes da maioria das casas não iam até o teto, assim a privacidade era zero. Certa vez chegou um médico à cidade e foi morar na pensão em que eu morava. Começou a reclamar que não podia dormir: até tarde chegava hóspedes; quando paravam de chegar hóspedes, os que dormiam mais cedo começam a urinar nos penicos; quando silenciava o barulho dos penicos, os madrugadores começavam a se movimentar. Naquele tempo eu era católico e frequentava as igrejas. Certo dia, estava chegando da “zona”, e a dona da pensão me “flagrou”. Ela estava saindo para a missa e me convidou. Não tive alternativa, fui rezar! Vou contar somente mais uma para não me alongar. Eu e mais dois colegas fomos a uma festa em Rui Barbosa (mais ou menos a 30 km de Itaberaba), num Simca Emisul dirigido pelo filho de uma cliente. Quando estava terminando o baile, arranjaram uma briga com um colega (ele era de Juiz de Fora). Cadeiradas prá lá e empurrões pra cá, o dono do Simca gritou: vou pegar o revólver no carro. No mesmo instante, outros rapazes da cidade também gritaram e saíram para buscar as armas nas suas casas. Corremos para o carro e fugimos. Estrada de chão e muito cascalho. Mais ou menos na metade do trajeto, numa curva, o carro capotou. Quando parou alguém disse: “sai de cima de mim”! Saímos do carro. Somente o colega de Juiz de Fora tinha um corte na cabeça. Era madrugada, a lua no céu, sentei na beirada da estrada, comecei a chorar e pensei na minha mãe. MÃE... sempre elas! A história não termina aqui, ainda existe muito mais. E muitas outras histórias. Vou deixar o final para o dia 20.06.24, “se a canoa não virar”, como dizia meu irmão!

Dedico este rascunho aos colegas com quem tive o prazer de trabalhar em Itaberaba (BA), de junho de 1966 a setembro de 1970. Que Deus proteja os que estão aqui e ilumine os que já partiram!