15/01/2011

LEITURAS DE PRAIA

Na praia, é comum folhearmos revistas de verões passados. Neste ano, não foi diferente. Reli um texto de Ruth de Aquino, publicado na revista Época de novembro de 2009, sob o título “Por que a escola precisa ensinar cidadania”. O tema é importante, especialmente porque trata de uma nova lição que será ministrada nas escolas britânicas: “não bater em mulheres e meninas”.
Todos os questionamentos levantados pela autora são extremamente relevantes, mas também são extremamente incômodos. “Formar os valores do indivíduo, dar noções de cidadania... é papel da escola ou da família?”. Ela não se refere às antigas aulas de moral e cívica, mas sim a noções de convívio pacífico, não discriminação, respeito ao meio ambiente, aos idosos e aos vizinhos. Reporta-se também ao abuso de álcool, drogas e armas, além da violência em casa, na rua e em sala de aula.
“Ao atribuir à escola parte da responsabilidade pela formação do cidadão não estaríamos passando atestado da falência da família?”. “Não deveria ser papel dos pais?”. “Teoricamente, sim. Mas, como pais, cumprimos nosso papel? A família moderna – em que pais e mães trabalham dez horas por dia e dedicam pouco tempo aos filhos, ou se divorciam numa velocidade maior do que se casam – é autossuficiente para formar cidadãos responsáveis?”.
O texto se encerra com a autora esclarecendo que é “totalmente contra apostilas e livros com viés ideológico, que santificam ou demonizam personagens históricos para fazer a cabeça da criançada”, e acredita que “a criação de uma cultura cidadã é responsabilidade de todos: Pais, escolas, Estado”.
Muito bem! Conforme se observa, as questões foram levantadas, mas onde se encontram as respostas? A responsabilidade é dos pais, das escolas e do Estado, mas a base, isto é, a estrutura inicial se encontra na família? A fim de polemizar um pouco mais, acrescentemos outras perguntas. Será que as famílias já não se encontram num desenfreado processo de falência? Falência múltipla, ou seja, física, psicológica e espiritual?
Fui educado por pais que eram praticamente analfabetos. Mas eu era cercado de amor 24 horas por dia, 365 dias por ano! Existe uma enorme diferença entre, prioritariamente, cercar uma criança de amor e cercá-la de bens materiais. Hoje nossas crianças estão cercadas de brinquedos e são educadas por babás e profissionais de creches, que podem ter boa vontade e até ser tecnicamente mais competentes, mas...
Argumenta-se que o importante é a “qualidade”, e não a “quantidade” do relacionamento. Um tremendo papo furado, pois se a criança se machuca ou vivencia qualquer experiência relevante, a importância de seu aprendizado intelectual e emocional deve ocorrer em tempo real, ou seja, no exato momento em que ela necessitou de apoio e orientação.
Pode-se afirmar, taxativamente, que, em todos os momentos realmente importantes de nossas vidas, todos nós gostaríamos de ter a nosso lado a figura do pai, da mãe ou, preferencialmente, de ambos. Por outro lado, pode ocorrer que, no momento em que os pais se encontram disponíveis, os filhos não estejam nem um pouco preocupados com a “qualidade” de seus relacionamentos.
Por que os pais trabalham dez horas por dia e dedicam pouco tempo aos filhos? Na maioria das vezes, não se trata de atender a reais necessidades da vida. Trata-se de necessidades supérfluas criadas pelo ego dos próprios pais – um ego estruturado pela vaidade e pelo consumismo de uma sociedade capitalista.
Diferentemente dos adultos, a felicidade de uma criança não depende do custo ou da etiqueta de suas roupas ou de seus brinquedos. Quem nunca viu uma criança abandonar um brinquedo caríssimo e passar a dedicar toda a sua atenção a um carretel de linha ou a duas tampinhas de garrafa? A felicidade, ou o Reino de Deus está dentro de cada um, cansou de afirmar Jesus, e o reino da criança é maior do que o reino do adulto, que se encontra soterrado pelos entulhos da vida.
Ruth levanta mais dois pontos que merecem extensos comentários. Num, ela diz: “Teoricamente, caberia aos pais educar seus filhos. Mas ninguém pode dar conta dessa tarefa sozinho”. Pouco adianta os pais, por exemplo, ensinarem ética e honestidade em casa (se conseguirem!), e o mundo lhes apresentar “mensalões” e “dólares na cueca”.
Noutro, ela afirma: “Quando se fala em defesa da cidadania, logo se pensa em sair às ruas e exigir nossos direitos. E os deveres de cada um?”.
De acordo com o Aurélio, dever significa “ter obrigação de; ter de pagar; estar na obrigação de restituir”. Isso quer dizer que, se alguém não paga ou não restitui, deve ser cobrado. Mas quem cobrará quem, se, hoje, a maioria dos pais e  dos avôs se tornou emocionalmente refém de filhos e netos? Se a maioria das escolas se tornou financeiramente refém do vil metal? E se as igrejas se tornaram espiritualmente reféns dos fiéis, conforme se depreende das monumentais campanhas e estratégias mercadológicas?

JOSÉ ANACLETO DE FARIA é sócio-fundador da Associação dos Amigos de Muriaé – AAMUR (em constituição).