12/10/2010

MENSALÕES E REFLEXÕES

Nesta semana, estourou o mensalão do Arruda, governador do Distrito Federal. O mensalão do Arruda não é um mensalão qualquer, trata-se do mensalão da capital do país, em que o envolvido, ao vivo e em cores, não é um funcionário dos Correios, mas sim o próprio governador.
Além disso, agora é um “DEMsalão”. Já tivemos o mensalão do PSDB, liderado pelo senador Azeredo, e o do PT que, de direito, foi coordenado por Zé Dirceu e, de fato, pelo presidente Lula. E o do PMDB com o escândalo do senador Sarney, pois, mensalão ou não, os apadrinhados recebem “mensalmente”. Nada como viver numa democracia “forte”, onde até mensalões se alastram, sem discriminar pessoas e partidos.
 
Como dizia o meu pai, o ser humano se acostuma com tudo, inclusive, com o que é ruim – infelizmente! No tocante a mensalões, é só uma questão de tempo, pois o Brasil tem 5.564 municípios, isto quer dizer que existem, em ação ou em potencial, 5.564 oportunidades para nossa “consciência calejar” em termos de mensalões. E não pode ser diferente, por inúmeros motivos.


Primeiro, o Brasil, assim como o mundo, “não são habitados exclusivamente por santos”. Pior ainda, governantes e políticos não são escolhidos exclusivamente entre santos, conforme se depreende das “fichas-sujas” divulgadas freqüentemente pela imprensa.


Segundo, as prefeituras não cumprem as leis – especialmente o Estatuto da Cidade e a Lei de Responsabilidade Fiscal –, e nada acontece. Mas o idiota do cidadão, muitas vezes sacrificando a própria família, tem que cumprir religiosamente todos os seus deveres, porque senão lhe pesará sobre os ombros o rigor das leis e o sumo poder do Estado.


Terceiro, nenhuma Câmara de Vereadores fiscaliza efetivamente as atividades do Poder Executivo, conforme determina o artigo 31 da Constituição Federal, a não ser, excepcionalmente, em razão de divergências entre lideranças políticas. Conforme consta da página 194 do Estatuto da Cidade – guia para implementação pelos municípios e cidadãos, editado pela Câmara dos deputados, os vereadores querem saber é de barganhas, negociatas e trocas de votos pela chegada de infra-estrutura nos bairros, enfim, do conjunto de relações populistas, que mantém as populações como reféns e em estado de precariedade eterna, que conserva elites políticas no poder.


Quarto, nenhum cidadão, órgão de classe (CREA, OAB, etc.), sindicato ou associação de moradores de bairro consulta e aprecia as contas do Poder Executivo, conforme faculta o artigo 49 da Lei de Responsabilidade Fiscal. Em pleno século XXI, com 65 anos nas costas, é duro a gente ter que engolir a verdade transmitida por Aldous Huxley em 1937: “Em maior ou menor grau, portanto, todas as comunidades civilizadas do mundo moderno são constituídas de uma pequena classe de governantes, corrompidos pelo excesso de poder, e de uma grande classe de governados, também corrompidos, pelo excesso de obediência passiva e irresponsável”.


Abri o jornal O Globo (02.12.09) e lá estava a manchete: “Imagem de políticos recebendo propina ‘não fala por si’, diz Lula”. Noutra página, aparecem várias fotos mostrando dinheiro na bolsa, na mão, na meia e até na cueca. Essas fotos não nos causam mais espanto, pois já fazem parte da rotina diária, assim como assaltos, estupros e ônibus queimados no Rio de Janeiro. A foto que mais me impressionou, entretanto, foi a que mostra três políticos, abraçados, agradecendo a Deus pelos benefícios recebidos. Minha indignação talvez tenha sido porque, como já escrevi várias vezes, no meu entendimento, o mundo somente mudará quando as pessoas mudarem, e as pessoas somente mudarão no dia em que mudarem o conceito que elas têm de Deus.


Falando em conceito de Deus, no mesmo jornal, leio a mensagem de apoio, que Zico enviou ao técnico do Flamengo: “[...] que Deus te ilumine a tomar as melhores decisões pro seu grupo...”. Que Deus me perdoe, mas vamos ao popular: “Que diabo de deus é esse que as pessoas têm na cabeça que será capaz de iluminar alguém para tomar melhores decisões exclusivamente pro seu grupo”? É mais ou menos como um pai pedir a Deus que o ilumine para tomar melhores decisões apenas com relação a dois de seus cinco filhos. O que essas pessoas entendem por “amar ao próximo como a si mesmo”? Ou quando Jesus disse: “O Pai e eu somos um”?


Tiro o fusca da garagem e começo a descer o morro da Gávea. Logo em seguida, vejo três senhoras de saias longas descendo a Rua Francisca Silva Passos. Como todos sabem, nossa mente trabalha por associação, portanto, o contexto e as “saias longas” me levam aos evangélicos. Aí reflito com os meus botões: “O que pensariam essas senhoras, que provavelmente estão fazendo um trabalho de evangelização, sobre a foto dos políticos agradecendo a Deus pela propina recebida?”. Como conhecedoras da Bíblia e dentro do processo de associação da mente, talvez lhes ocorra a passagem descrita em Lucas 16,9: “E eu lhes declaro: Usem o dinheiro injusto para fazer amigos, e assim, quando o dinheiro faltar, os amigos receberão vocês nas moradas eternas”.


Existem no mundo 74 países menos corruptos do que o Brasil. E, como eu disse anteriormente, existem 5.564 oportunidades para novas corrupções. Há exceções, é claro, como Maringá (PR) e Januária (MG), onde as atividades dos Poderes Executivo e Legislativo são sistematicamente fiscalizadas pela população. Segundo o mencionado jornal, num debate, o senador Pedro Simon reconheceu algo que já venho afirmando há longo tempo: ele “acha que não se deve esperar nada do Congresso. Só a mobilização popular seria capaz de mudar a situação”.


O problema é que para ocorrer uma mobilização popular que atue efetivamente no dia a dia do processo de gestão pública – e não apenas em casos especialíssimos ou quando das passagens do cometa Halley – é necessário que as pessoas mudem. E podem me crucificar, mas as pessoas, em sua essência, nunca mudarão enquanto não mudarem o conceito de Deus que lhes foi introjetado na infância e que, na maioria das pessoas, permanece por toda a vida. E esse conceito infantil é duplamente difícil de ser modificado, porque:


a) traz a idéia de que sofrer neste mundo é garantia de uma vida melhor no paraíso celestial – e isso naturalmente interessa às pessoas que se encontram no poder, pois faz com que os miseráveis aceitem com resignação muitos sofrimentos que lhes são injustamente imputados; e


b) é muito cômodo acreditar que Deus castiga e coloca cruzes nas costas das pessoas, isto é, acreditar que os meus problemas são castigos de Deus, e não conseqüências dos erros que cometi e cometo minuto a minuto. Se reconhecer que eu sou o único responsável, obviamente a solução deverá partir de mim, e não de Deus. E não é nada fácil tomar decisões que mudam radicalmente nossas vidas, que exigem disciplina e trabalho rigorosos.


Por que me preocupar com o conceito de Deus se até bolsa-celular está aí, o Flamengo nunca esteve tão bem, e o mundo me pode ser financiado em 24 meses sem juros? “Um brinde – e que Deus tenha pena da alma do Anacleto por escrever tantas besteiras”.