14/04/2011

PLANETA AMIGO


Estou totalmente de acordo com a conscientização dos alunos das escolas sobre a importância da preservação do meio ambiente.
O desafio está em como falarmos honestamente deste tema – e de inúmeros outros – sem nos tornarmos (mais) hipócritas. Não consegui ler o que se encontra nos cartazes da escola onde foi realizada a palestra. Felizmente, temos a maravilha da internet, onde tudo (ou quase tudo!) se encontra a nosso dispor mediante os já famosos “ctrl+c” e “ctrl+v”. E lá, logo na primeira página, encontro o cartaz ao lado (http://cefa-go.blogspot.com/),  realmente ilustrativo para os fins que tenho em mente. A poesia é:

PLANETA, MEU AMIGO,
EU ESTOU AQUI PRA VER
MUITA GENTE DESTA TERRA
QUE NÃO CUIDA DE VOCÊ.

TODOS NÓS AQUI VIVEMOS
E QUEREMOS TE SALVAR.
AS CRIANÇAS DESTA ESCOLA
NUNCA VÃO TE ABANDONAR.

VAMOS CUIDAR DA CIDADE
E VOCÊ VOLTA A SORRIR.
TEMOS FORÇA E AMIZADE
PRA O FUTURO CONSTRUIR.

“Todos nós aqui vivemos e queremos te salvar (...) vamos cuidar da cidade (...) pra o futuro construir”. Ops! Complicou!
O que será que as crianças pensariam se soubessem que, por nossa culpa, isto é, culpa de seus pais, o Conselho do Meio Ambiente – e todos os outros conselhos – de Muriaé não funcionam. O art. 191 da Lei Orgânica do Município é taxativo:

O Poder Público Municipal manterá, obrigatoriamente, o Conselho Municipal de Meio Ambiente, órgão colegiado, autônomo e deliberativo, composto paritariamente por representantes do Poder Público, entidades ambientais, representantes da sociedade civil, que, entre outras atribuições definidas em lei, deverá fiscalizar, analisar, aprovar ou vetar projeto público ou privado que implique impacto ambiental, ouvindo a coletividade.

O que elas pensariam, especialmente de seus micro-esforços de hoje, se comparados com as macro-ações e com os macro-investimentos da CBA, no Mineroduto e seu Plano “Particular” de Desenvolvimento Sustentável para Muriaé e Região? E sobre os R$ 103 milhões destinados à recuperação e conservação do Rio Muriaé?
O que será que as crianças pensariam se soubessem que a quase totalidade dos adultos muriaeenses, seus pais, desconhecem o que se encontra sobre meio ambiente no Plano Diretor da cidade (Lei nº 3.377/06) – a segunda lei mais importante do município, que deveria ter sido elaborada e estar sendo executada com AMPLA participação da população (excluídas, obviamente, as crianças que hoje estamos tentando conscientizar!).

O que será que as crianças pensariam se soubessem que a “proteção, preservação e recuperação do meio ambiente natural e construído, do patrimônio cultural, histórico, artístico, paisagístico e arqueológico” do município é uma das diretrizes da política urbana, que tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e da propriedade urbana? E que a cidade deve ser administrada por meio da participação da população (adulta!) e de associações representativas dos vários segmentos da comunidade? Tudo conforme previsto na Lei nº 10.257/01 (Estatuto da Cidade).
Na sua inocência e na honestidade de seus valores, será que elas incluiriam – nós, os adultos, seus pais – no “queremos te salvar”, “vamos cuidar da cidade” e “temos força e amizade pra o futuro construir”?
Afinal de contas, “quem precisa ser conscientizado”?