Em texto anterior disse que a crise atual não é financeira. É psicológica e espiritual, pois se trata de uma mudança de mentalidade. E, como disse Gurdjieff, é mais fácil achar um milhão de dólares na rua do que mudar a mentalidade das pessoas.
Desde que me tornei um praticante da Programação Neurolingüística (PNL), procuro, na medida do possível, restringir minhas conversas a fatos cientificamente demonstráveis, e evitar, especialmente com algumas pessoas e em determinados momentos, falar de assuntos subjetivos, ou seja, temas que envolvem juízo de valor. Por exemplo, posso afirmar que o presidente Lula, falando para uma platéia de artistas, usou a expressão “sifu”, mas não posso afirmar se isso foi bom ou ruim.
Mas mesmo tentando ser o mais objetivo possível, as coisas ainda se complicam. Certa vez, comprei um remédio de uso pediátrico que, usado por uma pessoa adulta, deu bons resultados. Em outra oportunidade, adquiri a versão para adultos. A pessoa tomou e insistiu que o remédio não produziu o efeito esperado: “Não é o mesmo remédio, prefiro o outro”.
Eu já sabia, mas resolvi confirmar. A composição é idêntica, somente varia a quantidade. Se no pediátrico há 1,5 mg, o adulto tem 3,0 mg. Li para a pessoa, um a um, os quatro componentes e as respectivas dosagens. “Mas eu não gosto deste”, retrucou. E não se trata daquelas pessoas que se morrerem afogadas na ponte do Porto, os bombeiros devem procurar o corpo nas imediações do Colégio São Paulo, como sempre brinca um amigo.
O fato acima ilustra a dificuldade de se mudar a mentalidade das pessoas. Isso me recordou também o tal do efeito placebo. Está comprovado que, em mais de 50% das doenças, a cura ocorre em razão da crença do doente na competência do médico e na eficácia do medicamento, tenha a pílula um composto poderoso ou simplesmente maisena e açúcar. O remédio de uso pediátrico é mais eficaz do que o de uso adulto, como discutir?
Quando fico encurralado, ou seja, nessas sinucas de bico que a vida nos coloca, sempre me socorro, com a lógica e com a razão, dos ensinamentos de nosso Irmão que está aniversariando neste mês. Ele sempre tem a verdadeira explicação. “Eles são duros de ouvido e fecharam os olhos, para não ver com os olhos, e não ouvir com os ouvidos...”. (Mt 13,15). E acrescentou: [...] em carne aparecei para eles. Encontrei-os todos embriagados [...] estão cegos em seus corações e não vêem...” (Tomé 28).
Mudar mentalidade é realmente um tremendo desafio, e este é o tema principal de minha conversa com os residentes da El Shaday. Eu procuro lhes mostrar que não é suficiente parar de beber ou de se drogar, que não é suficiente atingirem o estado de sobriedade necessário para viver em comunidade. É fundamental que dêem início a um profundo processo de mudança que os faça ultrapassar a qualidade média de vida que existe na sociedade atual. Nesse sentido, numa pesquisa ”informalíssima” os residentes acham que a média da qualidade de vida, de felicidade, da sociedade, numa escala de 0 a 10, é de 3,5. Neste ponto, eu lhes pergunto – usei o “lhes” no lugar de “aos residentes” para dar interpretação dúbia: “É 3,5 o grau de felicidade que vocês querem para o resto de suas vidas?” “Ou vão continuar a buscar alternativas de felicidade no álcool ou nas drogas, conforme fizeram até ingressarem na El Shaday?” Alguns ponderam: “É complicado, é muito difícil apenas se tornar limpo, e você quer que nos tornemos ainda melhores?”
Os residentes mais antigos sabem qual é a minha resposta padrão: Vocês acham que se fosse fácil evoluir, se tornar perfeito como é perfeito o Pai que está no céu, Jesus teria se deixado crucificar. Ele não se deixou crucificar para nos salvar – da forma como entende a maioria das pessoas: salvar de quê ou de quem? Ele se deixou crucificar para nos mostrar que mudar é um tremendo desafio, mas é o único caminho, pois, conforme Ele disse, se não se tornarem como crianças – puros de coração – vocês NUNCA entrarão no Reino do Céu. Vocês têm oito meses e cinco dias para decidirem sobre um efetivo processo de mudança, ou permanecerem adormecidos e continuarem reencarnando até que, algum dia, na eternidade, a ficha caia. Somente espero que não seja numa penitenciária, num leito de um hospital ou dentro de um caixão. Bons momentos, finalizo!
Como dizia o meu colega de Banco e guru gerencial, Marcos Bonifácio Pires, quando tínhamos que tomar uma decisão difícil no mês de dezembro: “Chefe, pega leve ou deixa pra janeiro, porque o Aniversariante é nosso irmão!” O Marcos acreditava em Deus, mas parecia que não acreditava; muitas pessoas parecem acreditar, mas na verdade não acreditam; é a vida!
(12/2008)