11/11/2010

A MATEMÁTICA DO DEPUTADO

Nesta noite, tive um sonho. Sonhei que tinha hipotecado todos os meus bens e conseguido empréstimos no total de R$ 1 milhão. O objetivo era me candidatar a Deputado Estadual.

Tudo estava indo muito bem, até que o meu saudoso professor de Matemática, com aquela sua elegância britânica, apareceu no sonho e exclamou:

— Seu “boboca coca-cola”, você não aprendeu nada do que lhe ensinei lá no Colégio São Paulo! Você já “checou” qual será o resultado financeiro deste seu empreendimento? Você vai investir R$ 1 milhão hoje, mas quanto você receberá como Deputado Estadual no final do mandato de quatro anos?
        Resolvi fazer as contas. Para tornar as coisas mais simples – senão o sonho se tornava um pesadelo –, não me preocupei com inflação e encargos financeiros. Fiquei somente no capital. Na internet, consegui uma referência de quanto ganha, “em tese”, um deputado mineiro:

a)   Subsídio (salário) mensal de R$ 12.384,06.
b)   Ajuda de custo de R$ 12.384,06, (em parcelas pagas no início e no fim do ano).
c)   Valor igual ao do subsídio mensal, pago no fim do ano, correspondente aos meses trabalhados pelo deputado (uma espécie de 13º salário).
d)   Auxílio-moradia de R$ 2.250,00.
e)   Verba indenizatória de R$ 20 mil para custeio do mandato, que serve para manter escritório político do deputado fora da Assembléia.
f)    Gabinete onde são alocados de 6 a 23 funcionários, de escolha do deputado, cujos salários são pagos pela Assembléia e variam de R$ 500 a R$ 7 mil.
g)   R$ 7 mil por ano em passagens aéreas (o parlamentar solicita e o setor responsável faz a compra do bilhete).

Analisei as informações e verifiquei que, certo mesmo, iriam me sobrar menos de R$ 20 mil por mês, conforme se observa nas alíneas “a”, “b” e “c” acima. Todo o restante, teoricamente, era destinado ao ressarcimento de despesas, ou seja, não iria parar no meu bolso – haveria simplesmente uma transferência.

Arredondei e calculei: R$ 20 mil vezes 48 meses é igual a R$ 960 mil. O professor ajeitou a gravata – ele sempre usava terno – e deu um sorriso semelhante àquele que dava quando nos via enrolados com uma equação do segundo grau. Antes que ele falasse algo, antecipei:
— Tudo bem, matematicamente falando, é tremenda burrice investir R$ 1 milhão hoje para receber R$ 960 mil em 48 parcelas de R$ 20 mil. Burrice dupla: além de não ganhar nada, vou ter que “trabalhar”, quando poderia muito bem aplicar o dinheiro e curtir longas férias numa praia. Mas, professor, explique-me, então, por que há inúmeros candidatos investindo mais de R$ 1 milhão em suas campanhas?
— Meu caro Anacleto, disse o mestre, existem coisas que “somente Freud explica”. Ou, quem sabe, nem ele nem Sócrates, Platão, Aristóteles e outros, pois a explicação está no coração de cada um e, como disse Pascal, “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. Volte a dormir e procure não misturar propaganda política com a novela “Escrito nas Estrelas”, finalizou.
(08/2010)