O presidente Lula inaugurou o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE). O programa está voltado essencialmente para tornar mais eficiente o sistema educacional em vigor. Não se questionam aspectos ligados a conteúdo, didática e pedagogia. Parte-se da premissa de que a educação atualmente praticada vem produzindo os resultados desejados no que se refere à liberdade, igualdade, justiça e paz, ou seja, está tornando as pessoas mais felizes, mais humanas e mais espiritualizadas. É uma questão de apenas aumentar a dosagem do remédio. Não pretendo radicalizar como o fez Roger Schank (1996):
Obrigar as crianças, que são tão diferentes umas das outras, a estudar a mesma coisa, no mesmo livro, na mesma página, na mesma hora é um absurdo completo. Aliás, estudar é um desperdício de tempo. Quem se lembra depois do que decorou à noite, na véspera de uma prova?
Nem
como José Ângelo Gaiarsa (1995):
O que restou em você depois de quinze anos de perda de tempo, sentado em uma cadeira, fazendo sabe-se lá o quê? Quinze anos de tortura e tédio, cujo conteúdo poderia ser aprendido em um ano, se alguém estivesse interessado nesse sentido.
Mas
existem vários aspectos da educação que merecem ser questionados. De acordo com
Paulo Freire (1970), “quem atua sobre os homens para, doutrinando-os,
adaptá-los cada vez mais à realidade que deve permanecer intocada, são os
dominadores”.
Para Freire a educação vigente tem uma concepção “bancária”, isto
é, o professor vai “enchendo” com “depósitos” as cabeças dos educandos, e
“quanto mais se exercitem os educandos no arquivamento dos depósitos que lhes
são feitos, tanto menos desenvolverão em si a consciência crítica. E a
concepção “bancária” de ensino consulta os interesses das elites dominadoras,
haja vista que, por meio de “depósitos” de crenças e slogans nas cabeças dos
oprimidos, ela permite que o status quo se mantenha.
O
problema é antigo. Aldous Huxley (1937) já afirmava que os sistemas não são
passíveis de sofrer mudanças, “exceto por pessoas que tenham sido educadas para
desejar mudá-los”, mas
[...] é improvável que os governos, organizados como o são atualmente, possam vir a mudar o sistema de educação existente de tal maneira que venha a se registrar uma demanda para uma completa revisão dos métodos governamentais.
Em resumo, será que alguém acredita
que existe por parte da elite dominante um desejo sincero de mudar alguma
coisa? Refiro-me a mudanças estruturais como as que poderiam ter acontecido
quando da elaboração dos Planos Diretores dos municípios previsto na Lei
Federal nº 10.257 (Estatuto da Cidade).
A dura realidade é que, em termos de
amar o próximo, ainda permanecemos enclausurados em nossos egos, e não cedemos
totalmente, “falando sério”, nem mesmo à “Tua vontade” constante do Pai Nosso
que rezamos a todo o momento.
Desse
modo, continuamos atuando no teatro da vida, “jogando para a platéia” e
arrumando as cadeiras no convés de um Titanic que naufraga celeremente.
A cada
dia o teatro se amplia, conforme se observa, por exemplo, nas palavras do
ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em O Globo de 20.04.07: “As
prestações de contas das campanhas eleitorais, em muitos casos, não passam de
peças de ficção [...] eles fingem que prestam contas, nós fingimos que aprovamos”.
E, enquanto a humanidade vai vivendo sua ficção, um menino é arrastado pelas
ruas do Rio de Janeiro, universitários são massacrados numa universidade
norte-americana, e uma mulher é esquartejada em Muriaé.
Mas o “bode” do Arnaldo
Jabor não é tão “preto”. Como “o pão e o circo” de outrora, ainda existem o
bolsa-família, o carnaval e o futebol!