11/11/2010

FILA DE BANCO

Chego ao banco. Entro na fila dos idosos. São exatamente 14h 45min, de acordo com o meu celular.
Normalmente, não me valho da prerrogativa de meus 65 anos, mas, se na fila de idosos havia dez pessoas, na outra havia aproximadamente quatro vezes mais.
Na minha frente se encontra um jovem, que deve ter menos de 20 anos.
— Estou guardando o lugar de meu avô que foi ali resolver outro problema – ele vai logo se explicando.
Chega uma senhora e, quase ao mesmo tempo, mais uma. Vamos chamar a primeira de Maria e a segunda de Ana.

            Começaram as conversas.
— Esse jovem aqui na fila... Esse país é uma bagunça, ninguém respeita ninguém – disse Dona Ana para Dona Maria.
Eu, que estava muito próximo, não pude deixar de ouvir.
— Como a gente vai respeitar, se a coisa toda começa lá em cima – comentou Dona Maria.
Não pude resistir e falei: “o garoto está guardando o lugar para o seu avô”. E acrescentei, olhando para Dona Maria: “será que a coisa começa lá em cima ou aqui embaixo?”.
— E aquela moça que está sendo atendida, será que está grávida? – pergunta Dona Ana.
Minutos depois, a moça foi saindo e Dona Ana conferiu: “Está!”. Mas Dona Ana não se conforma, ela é persistente e, percebendo que existe um funcionário supervisionando os trabalhos do caixa, dispara: “A fila tá emperrada, porque o caixa está em treinamento”. E foi narrando suas experiências com pessoas em treinamento.
Um segurança do banco se aproxima do cliente que se encontra na minha frente e, após os cumprimentos de praxe, pede ao cliente que faça um depósito para ele. Dona Maria, observa a cena atentamente, mas não diz nada. Ela me parece uma pessoa recatada. Será realmente, ou se trata de uma cumplicidade de cor, pois ambos são negros? Minha língua coçou e quase lhe perguntei: “a coisa começa lá em cima ou aqui embaixo”?
Fui ao banco fazer um depósito e pagar uma conta. O total era de R$ 134,00. Resolvi conferi meus recursos financeiros e vi que só tinha R$ 132,00. Pensei: “vou ter que arranjar dois reais emprestados com algum conhecido”. Apareceu o conhecido e solicitei-lhe os dois reais. Ele meteu a mão no bolso, mexeu na carteira e disse simplesmente: “Não tenho!”. E começou a se explicar. Meio sem graça, mudei rapidamente de assunto e pensei: “estou sem crédito” ou, como diz um amigo, “a crise tá brava”!
Dona Ana me salva da situação constrangedora e começa a falar que, na Caixa, ela resolve o problema da fila, pedindo ao “Caixa do Penhor” que lhe quebre os galhos. Ela falou isso diretamente para Dona Maria. Outra vez, quase perguntei à Dona Maria: “a coisa começa lá em cima ou aqui embaixo”? O leitor, obviamente, percebeu que o “lá em cima” se refere aos desmandos e roubalheiras que ocorrem em Brasília.
São 15h 20min. Alguém começa a falar sobre a lei que obriga os bancos a atender os clientes, no máximo, em 15 minutos. Neste momento, instalou-se o caos: o terminal do caixa dá defeito! Fala daqui, fala dali, “isso é caso de polícia”, diz um; e. “os bancos estão cada dia mais ricos”, exclama outro.
Até as 15h 32min, ficamos esperando os funcionários consertarem o terminal. Desistiram e transferiram nossa fila para outro caixa.
Em todo lugar e em todo o momento, sempre existe alguém que se considera mais inteligente ou mais esperto. Não foi à toa que Jesus recomendou aos apóstolos: “Eis que eu envio vocês como ovelhas no meio de lobos. Portanto, sejam prudentes como as serpentes e simples como as pombas” (Mt 10,16).
O cliente que se encontrava no último lugar da fila, imediatamente “pulou” para a frente do caixa que iria nos atender. A turma não resistiu, todo mundo resmungou e alguém explicou para o esperto – que não era tão idoso, mas demorou a entender – que era a mesma fila, somente o caixa é que estava sendo substituído.
Às 15h 38min, fui atendido. Meu dinheiro deu apenas para fazer o depósito. Tive que enfrentar mais duas novas filas: uma no banco para sacar, e outra na casa lotérica para pagar o título. “Será que o tempo que as pessoas despendem em filas nos bancos é considerado no cálculo do Produto Interno Bruto - PIB do país?” – filosofei – mas o tema merece reflexão. Enquanto os bancos não admitem funcionários para atender rapidamente aos clientes, as empresas são obrigadas a contratar funcionários para “freqüentar” filas de bancos. Além de outras conseqüências, será que as empresas – e a sociedade – não estão pagando uma conta que é de inteira responsabilidade dos bancos?
Ao sair, despedi-me das novas amigas e, discretamente, perguntei à Dona Maria: “E aí?”. Ela, que me pareceu uma pessoa ponderada e de bom senso, confessou: “O Senhor tem razão, a coisa começa é aqui embaixo”!
“Ê, ô ô, vida de gado, povo marcado, ê, povo feliz” (Zé Ramalho).
(02/2010)