10/04/2011

O QUE PODEMOS APRENDER COM A TRAGÉDIA DE REALENGO?


Jamais vamos conhecer toda a verdade sobre o massacre de Realengo – obviamente, não me refiro apenas à verdade existente na mente do matador. Penso que é exatamente por não nos ser possível conhecer as verdadeiras razões das coisas é que Jesus foi categórico quanto ao “não julgueis”.
A fim de que os mortos não morram em vão, é imprescindível que, levantando-se hipóteses e questionamentos, todas as instituições e todos os brasileiros busquem possíveis ensinamentos em tão lamentável tragédia. E, especificamente nestes casos, devemos agir rápido, pois, se temos os países “desenvolvidos” como referência, tudo indica que, infelizmente, não seremos uma exceção quanto aos massacres.
Provavelmente, cada um deverá buscar explicações dentro de suas respectivas áreas. O médico poderá buscar razões na saúde; o psicólogo, na mente; o sociólogo, na sociedade; e, assim, em todas as demais áreas do conhecimento humano. Mas o foco sempre estará voltado principalmente para a cabeça do assassino.
Humildemente, vou abordar a tragédia de um lado pouco confortável para todos nós, tendo como referência a afirmação do professor Liszt Vieira. Segundo Vieira, se não priorizarmos "nossas obrigações cívicas em relação a nossos direitos individuais, não deveremos nos surpreender se encontrarmos nossos próprios direitos individuais solapados".
Não resta dúvida de que a tragédia de Realengo se trata de direitos individuais drasticamente solapados. Desse modo, vou repetir a afirmação de Vieira: se não priorizarmos "nossas obrigações cívicas em relação a nossos direitos individuais, não deveremos nos surpreender se encontrarmos nossos próprios direitos individuais solapados".
Que são “obrigações cívicas”?
Entendam-se “obrigações cívicas” como aquelas obrigações que os cidadãos têm como membros do Estado. Se a Constituição Federal diz que “todo o poder emana do povo”, o corolário, isto é, a conseqüência evidente é que todos os deveres da União, dos Estados e dos Municípios fazem parte das “obrigações cívicas” – das obrigações dos cidadãos. Em Administração, temos o “principio da relação entre autoridade e responsabilidade” que diz: “A autoridade delegada corresponderá à mesma responsabilidade para a execução das atividades, nem mais, nem menos”.
Se esse raciocínio estiver correto, podemos perguntar: “Existe relação entre a “obrigação cívica” chamada sistema educacional e a tragédia? Segundo consta, o assassino estudou na escola por três anos. Se as "obrigações cívicas" – e, também, religiosas! – tivessem sido efetivamente cumpridas, isso poderia significar melhores condições de ensino-aprendizagem na Escola MUNICIPAL Tasso da Silveira? Grafei MUNICIPAL em caixa alta para salientar que se trata de uma escola pertencente ao Estado – aquele mesmo Estado em que “todo o poder emana do povo”!
Vou repetir a pergunta, generalizando: Se nós cumpríssemos efetivamente as “obrigações cívicas”, nossas escolas, por exemplo, teriam melhores condições de contribuir na formação de cidadãos de bem e de pessoas felizes?
Será que melhores condições de ensino-aprendizagem teriam permitido diagnosticar o grave conflito existencial que certamente já estaria sofrendo o aluno Wellington Menezes? E melhores condições de ensino-aprendizagem teriam conseguido transformar a mente do aluno, e, desse modo, ele não teria se tornado um matador e desgraçado com a vida de inúmeras famílias? Nunca saberemos, mas vale a pena repetir a afirmação de Vieira: se não priorizarmos "nossas obrigações cívicas em relação a nossos direitos individuais, não deveremos nos surpreender se encontrarmos nossos próprios direitos individuais solapados".
Alguém pode argumentar que o cumprimento integral das “obrigações cívicas” pelos cidadãos não é suficiente para se evitarem tais tragédias. Como prova, apresentaria os massacres ocorridos nos Estados Unidos, em que pesem as “condições ideais” de suas “obrigações cívicas” e de seu “sistema educacional”. Tudo isso é muito complexo. Justifica teses e teses de doutorados. Aqui não temos espaço, nem eu tenho competência para esgotar o assunto. Mas dois questionamentos sempre me atormentam.
O primeiro se refere às afirmações de vários estudiosos, feitas com todas as letras: “Nosso atual sistema educacional está falido”. Concordo com eles, salientando que o problema é antigo, conforme escreveu Aldous Huxley em 1937: “Milhões de crianças têm passado milhões de horas sob a disciplina escolar, lendo a Bíblia e escutando reprimendas – e os povos do mundo preparam-se para uma carnificina geral com mais empenho e mais cientificamente do que nunca”.
Mesmo que o sistema educacional não se encontre totalmente falido, devemos reconhecer que se trata de um sistema hipócrita, talvez em razão do capitalismo que praticamos. De um lado, as escolas, basicamente, ensinam nossos filhos a competir, a serem os melhores, a se tornarem vencedores. Do outro lado da rua, nas igrejas, nós lhes pedimos que amem seus colegas como a si mesmos.
Está patente que se trata de metas mutuamente exclusivas. Somente há vencedores, se houver perdedores. Não existe o superior sem o inferior, ou o rico sem o pobre. Como pedir ao perdedor e pobre que ame o vencedor e rico? Nossa evolução espiritual ainda não nos permite entender o Reino de Deus e agir de acordo com os ensinamentos de Cristo: “Se alguém faz um processo para tomar de você a túnica, deixe também o manto!” (Mt 5,40).
A propósito, penso que é por não praticar – de fato e de direito – os ensinamentos de Cristo é que estamos mergulhados num beco escuro e sem saída, onde milhares de pessoas caminham apoiadas na cervejinha, em drogas e antidepressivos. Mas isso tangencia nossos objetivos, e é outro tipo de hipocrisia!
Se a afirmação do professor Liszt estiver correta – e creio que está! –, o outro questionamento que me atormenta se refere às nossas “obrigações cívicas”.
Certa vez, um internauta recomendou-me que fosse menos prolixo e mais objetivo – vou seguir o seu conselho.
Vamos supor que a tragédia tivesse ocorrido em Muriaé na quinta-feira (24.02.11), e que, no dia anterior, na quarta-feira (23.02.11) tivesse ocorrido (como efetivamente ocorreu!) uma Audiência Pública em que a prefeitura prestou contas e avaliou os relatórios de metas fiscais do último quadrimestre de 2010. Trata-se de um orçamento superior a R$ 170 milhões que, se me recordo bem, destinou R$ 500 mil a um clube de futebol e R$ 20 mil à El Shaday, uma comunidade terapêutica que cuida da recuperação de toxicômanos e alcoólatras, ou seja, de pessoas que, inúmeras vezes, se encontram no limiar de sua saúde física e mental.
A Audiência Pública foi realizada com a presença de somente 4 (quatro) cidadãos. Apoiados na afirmação do professor Liszt Vieira, que dizer, se amanhã, nós, os muriaeenses tivermos nossos direitos individuais (ainda mais fortemente) solapados? Depois, será suficiente rezar e pedir perdão a Deus por nossa omissão? E se o Pai não aceitar nossas justificativas e nos questionar sobre o que fizemos com os nossos talentos (Mt 25,14)?
Já estou tornando prolixo!